Descaracterização – Dos quadrinhos ao cinema (Parte 1)

Que fã de histórias em quadrinhos não fica puto quando descaracterizam os personagens de HQ’s no cinema? Resolvi abordar esse assunto em duas partes. Nesta primeira, entro na questão racial e social da descaracterização.

Qual foi a do Michael Clarke Duncan interpretando o Rei do Crime em Daredevil (2003)? Muitos justificaram que seria difícil encontrar uma pessoa com a estatura do Rei do Crime que fosse branca. Duncan foi um ótimo ator, A Espera de um Milagre que o diga, mas colocar ele no papel de um dos maiores vilões da Marvel foi pura preguiça de encontrar algum ator  parecido com o personagem. Existem cosplays que fazem mais jus a Wilson Fisk do que Duncan fez (lembrando que estou falando somente de aparência).

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Mais recentemente, em 2013, resolveram colocar o notável Laurence Fishburne (ex-CSI) no papel do famoso e rabugento chefe de edição do Planeta Diário: Perry White. Fishburne é outro bom ator, mas não é o grisalho de sobrancelhas grossas do Perry White.

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Agora anunciam a contratação do Michael B. Jordan para viver o piadista do Quarteto Fantástico no remake de 2015. Não conheço o ator, nunca vi um filme dele, só sei que ele não é o Johnny Storm! Fico pensando no roteiro do filme… Nos quadrinhos Johnny e Susan Storm (Mulher Invisível) são irmãos. Como explicarão o parentesco entre ela e Johnny no filme?

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Lógico que, às vezes, a interpretação do ator é tão boa que muitos fãs acabam esquecendo dessa troca, como foi o caso de Idris Elba como Heimdall em Thor (2011).

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O fato é que é irritante quando trocam a etnia desta forma, acima de tudo porque queremos ver os personagens o mais próximo possível de como são apresentados nas HQ’s. Agora pensem comigo: e se resolvessem colocar atores brancos interpretando personagens negros?

Existe um boato de que o The Rock irá interpretar o Lanterna Verde John Stewart. Tuuudo bem, o The Rock não chega a ser exatamente branco, mas ele não é o John Stewart. Na minha opinião, não chega a ser nem um pouco parecido.

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E o que achariam do Miles Morales (Homem-Aranha do Ultiverso), personagem negro, latino, sendo interpretado pelo Charlie Rowe? Com certeza daria confusão.

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Mas é claro que as produtoras sempre têm uma carta na manga para explicar as trocas de etnias. A maior desculpa de todas (e a mais racista) é a seguinte: “Temos que dar vez a personagens/atores negros”.

Sim, racista! Digo isso porque, apesar de não serem tantos personagens negros quanto brancos, eles existem e fazem muito sucesso entre fãs de quadrinhos.

Se Michael Clarke Duncan estivesse vivo, ele poderia interpretar o Poderso Luke Cage (embora Michael Jai White ainda seja uma opção melhor). Afinal, Duncan é tão alto e forte quanto o personagem. Na verdade, eu chego a pensar que o Duncan também tinha a pele indestrutível.

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Michael B. Jordan poderia ser um Ciborgue da vida, personagem que ele já dublou na animação “Liga da Justiça: Ponto de Ignição”.

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E Idris Elba é mais a cara do John Stewart do que o The Rock.

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Além desses, quantos outros personagens negros poderiam ser explorados pelos cinema? Do lado da DC temos: Super-Choque, Raio Negro, Vixen, Aço, Senhor Incrível, Icon.

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Do lado da Marvel então, nem se fala: Pantera Negra, Homem Aranha (ultiverso), Ororo, Blade, Golias, Patriota, Falcão, Máquina de Combate, Isaiah Bradley.

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O que falta para investirem nesses personagens? Dinheiro, atores, fãs? Dinheiro não é problema para as produtoras, ainda mais se investirem em personagens conhecidos como Luke Cage (o qual muitos estão ansiosos para ver na telona).  Atores têm de sobra, ansiosos para mostrar o seu talento. Fãs? Bom, muitos fãs surgem depois de assistirem o filme e isto é bom tanto para as produtoras quanto para as editoras.

Para mim, a resposta é óbvia. O problema de investirem em filmes com personagens negros é o mesmo que gastar em filmes com heroínas. Por que não fizeram, até hoje, um filme solo da Mulher Maravilha? Porque não acreditam no sucesso de um filme apresentando um personagem no papel que muitos acreditam ser feito apenas para homens! Dessa mesma forma, também não creem no sucesso de um personagem negro, porque homens brancos fazem mais sucesso como super-heróis!

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Em suma, não quero ver negros interpretando personagens brancos, como se fossem meros substitutos! Eu quero ver os personagens negros dos quadrinhos ganhando destaque no cinema: Luke Cage, Ciborgue, Misty Knight, Miles Morales, Vixen, Pantera Negra, Sentinela Ômega, Spawn e tantos outros, populares ou não.

Agora só falta convocarem mulheres para interpretar personagens masculinos, no lugar de investirem em heroínas.

Infelizmente, é assim que funciona.

O Gato da Minha Vizinha

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Minha vizinha idosa tem um gato.

 Mas qual a surpresa em uma viúva de 70 anos ter um gato?

O gato da minha vizinha é preto.

Mas ele não dá azar, porque isso é lenda.

E mesmo se não fosse, ele ainda não traria azar.

Pois seu peito, que ele tão orgulhoso estufa, é branco.

Ele é um velho gato gordo e preguiçoso,

que se contenta em sentar na mureta do outro lado

só para encarar a minha casa.

Vejo ele desde que me lembro, ou até mesmo antes.

Mesmo assim, eu não sei o seu nome.

Não sei nem mesmo se é macho ou fêmea.

Tudo o que eu sei é que o gato é tão velho,

mas tão velho que seu olhar penetrante transmite séculos de sabedoria.

Quem sabe onde ele já esteve antes?

Talvez sua primeira dona tenha sido vítima da inquisição, pobrezinha.

Seu dono menos amável tenha sido um pobre esquizofrênico que só queria um amigo.

Houve um tempo, eu imagino, que Allan Poe fora seu dono.

Ele deve ter inspirado suas histórias, mesmo não sendo totalmente preto.

Há, com certeza, algo intrigante naquele gato.

Mas quem sabe eu esteja enganada e ele seja apenas um bichano comum,

Velho e preguiçoso, que gasta seu tempo ronronando e se espreguiçando para sua dona.

E que, nas horas, vagas encara a lua como se sentisse falta dela.

Sim, talvez ele não tenha nada de incomum.

Ou será que todos os gatos são assim…

Essa incógnita?

Encosto

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Tudo começou num dia quente como hoje.

Eu estava no ônibus, voltando do trabalho, quando a vi sentada perto de mim. Lembro que gritei muito (e como gritei). Pedi que me levassem ao médico, disse que não estava me sentindo bem.

O cobrador me deixou descer sem pagar a passagem e uma senhora me acompanhou até o hospital. Quem me atendeu foi o residente, um rapaz não muito mais velho do que eu.

“O que aconteceu?”, ele perguntou. No que respondi: “estou alucinando. O sol forte não me fez bem!”

Passei a noite no hospital, sendo medicada com sabe lá que remédios. Mas ela continuava lá. Parada. Sem mover um músculo.

No dia seguinte, quando acordei, ela estava de frente para mim. Imóvel.

O médico que me atendeu disse que estava tudo bem comigo, que a alucinação foi causada pelo calor.

Eu fui pra casa e ela foi comigo.

E foi assim ao longo dos anos que se passaram.

Com o tempo, eu fui me acostumando com sua presença. Sua aparência já não me assustava e seu silêncio não me incomodava mais.

Para todo o lugar que eu ia, lá estava ela. No cinema, ela sentava ao meu lado. Na fila do banco, ela ficava atrás de mim. E até mesmo nas fotografias ela sempre aparecia ao lado. Claro que só eu podia vê-la.

Às 7h, quando eu acordava, ela estava na frente da minha cama.

Às 8h, quando eu ia trabalhar, ela sentava ao meu lado.

Às 12h30, quando eu almoçava, ela ficava em pé me encarando.

Às 18h, quando eu voltava de metrô, ela sentava na minha frente.

Às vezes eu esquecia o que ela era, e lhe oferecia o que estava comendo ou até mesmo pedia sua opinião sobre algo.

Ela nunca falou. Nunca se moveu. Nunca fez nada. Nos primeiros anos, tentei de tudo para descobrir porque ela estava ali. Abdiquei do meu ceticismo para consultar médiuns e especialistas espirituais. Ninguém soube me dizer do que se tratava.

Consultei psiquiatras, neurologistas, psicólogos. Todos diziam a mesma coisa: “você está bem. Vá para sua casa e descanse.”

Acabei desistindo de entender a presença dela, simplesmente me conformei. Comecei a conviver com meu fantasma.

Mas, um dia, tudo mudou. Num dia quente como hoje, eu sai do trabalho e perdi o metrô. Tive que pegar o ônibus das 19h. Nesse dia ela sumiu. A partir desse dia, eu nunca mais a vi. Nesse dia, depois de muito tempo, eu finalmente senti medo.

Querida Fran,

988313_611910412188746_506968587_nSoube de um vídeo onde você aparece que caiu na internet. Na verdade, eu só fui ler o que realmente aconteceu hoje. Antes eu apenas lia a manchete e ficava empurrando a leitura completa para outro dia.

Depois que li fiquei chocada. Não apenas com a notícia em si, mas com os comentários, com as pessoas enchendo a boca para te acusar, Fran. Fiquei chocada, principalmente, com o número de mulheres que, no lugar de te apoiar, tomaram atitudes completamente machistas.

Sinceramente, eu não me imagino passando pelo que você passa agora, pelo que você passou. Tem vezes que esse tipo de coisa parece tão distante da minha realidade. Deve ser porque eu nunca tive um relacionamento sério. Talvez seja esse o motivo.

Sei que você deve ter confiado de coração no sujeito que estava com você, pois de outra maneira não permitiria que ele te filmasse. E dói, não é? Dói quando você praticamente entrega sua vida a uma pessoa e ela te expõe desse jeito.

Isso nunca aconteceu comigo e espero que não aconteça. Você fez porque conficou nele. Nisso você é superior a muitos, Fran. Você consegue ver bondade nas pessoas. Consegue confiar nelas. Muita gente não consegue isso nem com os próprios pais.

Como mulher, como ser humano, eu me sinto em seu lugar. Apesar de nunca ter sido exposta a uma situação tão constrangedora, eu sei as feridas que o machismo deixa. Você, eu e todas as mulheres somos vítimas dele todos os dias de nossas vidas. Não há um dia da minha vida em que nenhum homem ou nenhuma mulher (!) me fez sentir subjugada. Claro, em geral são coisas pequenas, que poderiam passar despercebidas, mas não passam.

Também me sinto no seu lugar, porque eu sei o que é ser chamada de puta, vadia, vaca. Nunca falaram isso de maneira direta para mim, mas me sinto atingida cada vez que uma mulher vive sua sexualidade e é julgada por isso.

Já fui julgada por ficar com vários homens na balada e não perguntar o nome deles ou por não achar nada demais falar sobre sexo (apesar da minha vida sexual não ser grandes coisas. Abafa!).

Enfim, Fran, não sei se você lerá este texto. Porém, quero que você saiba que muitas mulheres e homens estão do seu lado. Nós sabemos que o sexo é natural e bonito, mas expor uma pessoa do jeito que aconteceu com você é doentio.

E, lembre-se, para nós, você jamais será culpada por fazer sexo, por confiar em alguém, por ser mulher. Você é vítima de uma sociedade podre. Mas não deixe isso te abalar. Um dia tudo irá melhorar.

Um beijo de todo o meu coração!

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Esse texto foi inspirado no Carta Aberta a Fran, escrita pela Marcella Franco.

Por que a conta deve ser dividida?

Certamente, uma das piores coisas que existem é você estar em um encontro e uma parte se oferecer para pagar a conta inteira. Em geral, tem-se a visão de quem quem paga é o homem, não interessa se ele tem muito ou pouco dinheiro. É realmente chato ter que explicar, em pleno século 21, o quanto esta visão é deturpada, mas deve ser feito. Por isso, me ofereço para explicar algumas pérolas geradas por essa visão completamente machista:

1.       Homem pagar a conta é questão de cavalheirismo

PÉÉÉ!

O que é cavalheirismo? Agir como se mulheres fosses seres inferiores? Não estou falando que ser gentil é algo ruim. Eu acho que pequenos gestos de gentileza, como abrir a porta, são sempre bem vistos.  O problema é que esse tipo de agrado é só bem visto em homens. Já viram uma mulher puxando a cadeira para um homem sentar, sem ser olhada como um ser de outro planeta? Ou, pior, sem o homem se sentir inferior? Muitas vezes, o mesmo ocorre quando uma mulher se oferece para  dividir a conta ou até mesmo pagar toda ela. O homem se sente perdendo seu posto de macho alfa.

Pagar por conta de cavalheirismo é machismo, sim ou claro?

Vish, isso é "cavaleirismo". Engano meu, deixa eu trocar a imagem...

Vish, isso é “cavaleirismo”. Engano meu, deixa eu trocar a imagem…

2.       “Ele que convidou, ele que pague”

Essa daí eu vi em uma busca pela web sobre “homem deve sempre pagar a conta?” e, nos muitos dos resultados que apareceram, grande parte era comentários de mulheres ou homens falando: “Quem convidou, que pague”. Em partes, eu não discordo disso. O problema é que em 98% dos casos quem convida é o homem, já que é lhe dada essa obrigação.

Vivemos em uma sociedade onde a mulher que toma iniciativa é vista como uma vadia e até mesmo como “machona”. Mulher deve ficar no seu lugar: lavando a louça na cozinha enquanto aguarda o seu amado ligar com um convite para um jantar.

Machismo, sim ou claro?

"Aiin, será que ele vai me ligar?"

“Aiin, será que ele vai me ligar?”

3.       Mulher gasta muito para se arrumar, por isso o homem tem que pagar a conta

Vocês devem conhecer aquela famosa lista sobre o que a mulher gasta se preparando para um encontro. Entre maquiagem até a escolha do sapato, estima-se que mulheres gastam quase R$1000,00 para um encontro. Desculpem quebrar a cara de vocês, mas essa estimativa está errada. Nem todas nós gastamos isso tudo para um encontro. Eu mesma, por exemplo, me viro com o que tenho em casa, sem gastar nada em salão ou em roupas novas. Afinal, eu estou indo para um encontro e não para o Oscar. Se um dia eu tiver que gastar horrores em produção, vai ser para pisar no tapete vermelho e receber uma estatueta de melhor roteirista, e não para um encontro.

Então, continuo achando essa lista que rola pela internet ridícula. Motivo? Só prova o quanto a sociedade impõe um padrão de beleza sobre as mulheres. “Não usa maquiagem, não usa vestido, não usa salto, não usa joias, não é magra e quer ser bem vista em um encontro? Me Pope!”

Machista, sim ou claro?

Eu posso falar em que parte do corpo humano essa lista deve ser enfiada?

Eu posso falar em que parte do corpo humano essa lista deve ser enfiada?

Bom, eu acho que esses três itens foram suficientes para explicar como é machista e misógino não dividir a conta em um encontro. Agora darei apenas UM motivo sobre o  porquê de dividir o dimdim:

Os DOIS estão em um encontro

Um encontro não é feito apenas por uma pessoa. Não interessa quem convidou e quem não convidou. Se uma das pessoas desistisse, não haveria encontro, certo? Sendo assim, é justo que ambas paguem.

Gente, desculpem, mas isso é tão óbvio que eu até estou com dificuldade para explicar… Então, entendam: duas pessoas em um encontro, as duas pagam.

Tão claro quanto água. Pronto!

*música do John Williams tocando ao fundo*

*música do John Williams tocando ao fundo*

Depois de tudo isso vocês vão continuar achando que a responsabilidade de pagar a conta é do homem, porque ele deve ser cavalheiro; é de quem convida (que é o homem, já que é obrigação só dele) ou é do homem (novamente), porque a mulher gasta demais para se arrumar? Gente, por favor, vocês estão me envergonhando! D,=

O Poema Proibido

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– Eu vejo gente morta.

O médico encarou a jovem em sua frente com precisão. Ela vestia uma camiseta amarrotada e uma legging até o joelho. É como se tivesse resolvido marcar uma consulta no psiquiatra no meio de uma caminhada porque se lembrou que estava vendo gente que não existia.

A garota esfregava uma mão na outra e não conseguia deixar as pernas quietas. “Ele não vai acreditar em mim!”, ela deveria estar pensando.

– Todos os dias? – perguntou o médico.

– Todo o tempo.

– Quem são essas pessoas mortas? Você acha que conhece elas?

– Na verdade, é apenas uma garota.

O doutor a encarou por cima de seus óculos miúdos e percebeu que agora ela parecia mais nervosa do que antes, mais trêmula e sua respiração ficara ligeiramente mais pesada.

– Quem é essa garota?

– Não conheço. É uma jovem, não deve ter mais do que 13 anos. Tem os cabelos pretos e longos, que cobrem toda a sua cara. Ela também fede. Tem cheiro de podridão!

– Faz muito tempo que você a vê?

– Semana passada eu li um poema. Eu não lembro o nome dele, mas estava traduzido do japonês. Dizia: “você não deve ler esse poema em voz alta, ou algo muito ruim irá acontecer com você.” Mas eu queria provar que isso tudo era uma baboseira. E , então, eu o li em voz alta.

A garota começou a tremer mais ainda e agora encarava os livros que estavam na estante, como se de repente eles parecessem mais interessante do que a conversa que estava tendo com o seu médico ou talvez achasse que todos aqueles livros sobre Transtorno Bipolar e Déficit de Atenção fossem lhe dar uma resposta.

– Sobre o que falava esse poema?

– Eu não lembro ao certo. Acho que era sobre uma garota e ela foi para o inferno.

– Você acha que está vendo ela? Acha que é ela que está perseguindo você?

– Você acredita nessas coisas? Quero dizer, eu li o poema porque eu não acreditei que algo ruim iria acontecer comigo e agora estou vendo essa garota que saiu do inferno para me perseguir. Você não acha que é muita coincidência?

– Às vezes um evento em questão pode ter feito você perceber que algo não está completamente certo com você.Talvez você já estivesse vendo pessoas que não existem antes de ler esse poema.

– Mas eu sinto o cheiro dela. Parece ser tão real!

O médico ficou pensativo por um momento, encarando a garota que balançava as pernas nervosamente.

– Tudo bem – disse ele puxando um pedaço de papel -, eu não posso afirmar o que você tem. Vou prescrever um exame neurológico para ver se você não sofreu nenhum trauma no crânio. Vou lhe dar meu telefone, caso você precise de mim.

Ele entregou a folha com a prescrição dobrada para ela, que não hesitou em pegar.

– Não posso lhe dar nenhum remédio, sem saber exatamente o que você tem. – acrescentou – Por favor, remarque uma consulta após fazer esse exame.

Ela balançou a cabeça concordando com ele e levantou se curvando ligeiramente e, agradecendo a consulta, foi em direção à porta. Foi quando ele a parou.

– Espere! Quando ficar pronto, não se esqueça de me avisar.

– Ah, mas eu vou marcar outra consulta. Por que eu…

Então ela viu que ele estava com um grande sorriso na cara. O papel da prescrição que estava em sua mão parecia mais sólido. Ela o pegou e abriu. Nele estava escrito em letras garrafais:

“BOA SORTE COM O SEU LIVRO.”

Nota: Agradecimento ao Medo B. Foi de lá que tirei inspiração para esse conto. 😉

Física

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Hoje eu estava na central de atendimento da faculdade em que estudo esperando para ver alguma coisa pendente sobre uns documentos que precisava.

Enquanto eu esperava, vi um garoto de 8 ou 10 anos com um trabalho no colo intitulado “A Geração da Mente”. Fiquei curiosa e comecei a puxar assunto com ele.

– Então, o que você está fazendo aqui? Também precisa de algum documento?

O garoto me olhou desconfiado por cima dos óculos quadrados antes de dizer:

– Não. Eu quero publicar este artigo para os alunos da faculdade e pensei que poderia conseguir ajuda aqui.

Ele tirou mais um pouco as mãos de cima do artigo e eu pude ver que o nome do autor era Eduardo Schunemann.

– Por acaso esse artigo é do seu pai?

O menino balançou a cabeça, negativamente.

– Do seu irmão?

– Não. – falou o garoto estufando o peito de orgulho – É meu.

Olhei-o com silêncio por algum tempo, pensando que ele talvez fosse um supergênio mirim ou apenas um garotinho que estava tentando brincar comigo.

– Não brinca! – disse eu por fim – Deixa eu adivinhar: fala sobre Física, não é?

– Por que você acha isso? – ele pareceu um pouco ofendido – Eu nem gosto de Física. Ela é muito complicada e tem aqueles cálculos chatos!

– Tá, tá, foi mal! Sobre o que fala o seu artigo?

– Sobre Física.

– Mas você disse que…

– É sobre Física. O estudo do Universo. Você sabe o que é o Universo?

– Bom, não seria tudo?

– Minha teoria é de que o Universo é a mente. Tudo surge através de ideias, de pensamentos. Se não fosse pela mente, nada existiria. Mesmo se existisse não existiria, pois sem a mente não teria valor.

– Você está dizendo que as estrelas não estariam no céu se não tivéssemos a capacidade de pensar?

– De fato. Elas continuariam do céu, como sempre foi, mas sem nossa capacidade de pensar, ignoraríamos elas completamente. E tudo aquilo que é ignorado, não existe.

– Nem gente?

– Sem a capacidade da mente nada e nem ninguém existiria. Você, para mim, seria como um vazio enorme do meu lado, assim como eu seria para você.

– Você acha que quando machucamos alguém, é por que não damos valor a sua existência? Quando estamos com raiva, não pensamos no que fazemos e acabamos ferindo alguém. Seriam lapsos de nossa ignorância?

– Sem dúvidas. Ainda bem que são apenas lapsos, não é?

Não pude continuar a minha conversa com Eduardo. Uma campainha tocou e a tela mostrou a senha de atendimento dele. Desejei-lhe boa sorte com a publicação e esperei minha vez de ser atendida.

Fiquei imaginando se Eduardo havia se lembrado de estacionar sua espaço-nave fora da vaga de deficientes. Vi em seus olhos algo de outro planeta, talvez esperança.

Infância

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– Eu acho que vou seguir o meu sonho.

– E qual é o seu sonho?

– Eu quero descobrir um novo mundo. Diferente de tudo o que eu já vi!

Eu cuspi o refrigerante que estava bebendo em minha própria roupa. Olhei sério para o meu amigo e falei:

– Fala sério, cara! Que mundo é esse que você quer descobrir?

– Quando eu era criança eu lia livros e todos eles mostravam mundos diferentes. Coisas que eu jamais imaginei que poderiam existir. Mas agora eu quero descobrir um mundo novo. Um mundo que nunca vi nos livros que li ou nos filmes que assisti.

– Entendi. Você quer criar histórias…

Meu amigo de uma risada debochada. Ele brincou com um dente-de-leão antes de prosseguir a conversa.

– Não sou bom com histórias.

– Mas então… O que você quer dizer com “descobrir um mundo novo”.

– Eu não sei. É por isso que se chama “descobrir”. E quando eu fizer isso, vou saber exatamente o que me levou aquela descoberta.

Eu deitei na grama e entrelacei as mãos atrás da minha cabeça.

– Me parece loucura…

– Não só parece. É!

Eu virei a cabeça para encarar o meu amigo, que agora também estava deitado.

– Mas então, por que você pensa em prosseguir com isso?

Meu amigo sorriu para os céus, enquanto brincava com o cabinho do dente-de-leão entre seus dedos.

– É que existe um carinha lá no meu passado que eu não quero decepcionar, pois eu já deixei ele triste muitas vezes. Não quero mais fazer isso.

Vi uma lágrima escorrendo de seus olhos, aquele tipo de lágrima que deixa você sem palavras. Ficamos em silêncio por um longo tempo. Na verdade, foi tanto tempo que quando voltei de um devaneio, vi que uma borboleta estava pousada no meu nariz. Há quanto tempo será que ela estava lá?

Virei para o lado e meu amigo não estava mais lá. A borboleta também fugiu, assustada com o movimento brusco da minha cabeça. Peguei meu livro de histórias e me levantei para ir pra casa. Havia um carinha me esperando lá, alguém que eu jamais poderia decepcionar.

 

Inspirado em uma tira que vi em algum lugar do Facebook.  

Daniel Radcliffe: bruxo, médico, poeta gay e… Freddie Mercury? (:

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E a notícia que acabou de sair é a cogitação do ator Daniel Radcliffe para viver Freddie Mercury nos cinemas. Lógico que críticas negativas não faltaram do pessoal do Facebook que gosta de dar uma de crítico de cinema, enquanto bebe seu Toddynho…

Antes de entrar mais a fundo nessa questão de críticas, vou explicar o que está acontecendo: Sacha Baron Cohen que interpretaria Freddie acabou se desentendo com Brian May e Roger Taylor, integrantes da banda, e acabou saindo da produção. Depois disso, Daniel Radcliffe foi cogitado para o papel. Bom, esse é o resumo do fato.

Novamente vi gente querendo arrancar cabelos antes mesmo de ver a produção. Os piores comentários são os do tipo: “O ator que fez o Harry Potter vai fazer o Freddie Mercury? Nããão!” Típico de gente pequena, que não faz a menor questão de ampliar seus horizontes.

Daniel Radcliffe teve uma excelente atuação na mini-série A Young Doctor’s Notebook, onde interpretou um recém-formado médico russo. Isso fora todos os outros filmes e peças teatrais que ele já fez.

Segundo os produtores responsáveis pelo filme que irá contar a vida de Freddie Mercury, Daniel foi cogitado por sua estatura parecida com a do vocalista e por sua atuação no filme Kill Your Darlings, onde viveu o polêmico poeta americano Allen Ginsberg. Filme que apesar de ainda não ter estreado (pelo menos não por aqui) já rendeu elogios a Daniel. “Chocante!” foi um dentre muitos comentários positivos que o longa está recebendo.

Então não, não é Harry Potter que poderá interpretar Freddie Mercury. É Daniel Radcliffe e ele já foi:

Allen Ginsberg (Kill Your Darlings):

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Arthur Kipps (Woman in Black):

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Vladimir Bomgard (A Young Doctor’s Notebook):

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E muitos outros!

Mas a lista de atores que já foram criticados muito antes da estréia do filme não é pequena. Entre eles vemos nomes como Heath Ledger (Batman – The Dark Knight), Mark Ruffalo (Avengers), Jennifer Lawrence (Hunger Games), Anne Hathaway (The Dark Knight Rises), Daniel Craig (007), Hugh Jackman (X-men, Wolverine), Robert Downey Jr. (Iron Man) etc, etc e etcétera. Enfim, todos esses atores deram o seu melhor e fizeram ótimos filmes, muitos deles sendo aclamados e eternizados, como Heath Ledger no papel do Coringa.

Outra coisa comum de acontecer é a crítica de fãs por toda a culpa em cima dos atores, em caso de filmes ruins. Se esquecem que atrás de uma produção existe uma série de pessoas responsáveis e são todas elas juntas que vão dar vida a um filme. Vejam, por exemplo, o caso de Iron Man 3. Robert Downey Jr. sempre fez um ótimo papel interpretando Tony Stark, mas isso não impediu que o último filme do Homem Ferro fosse, no mínimo, uma bosta. Culpa de Downey Jr.? Não, culpa do péssimo roteiro, da péssima direção e dos péssimos efeitos especiais. O que estou dizendo é que a culpa não cabe apenas a uma pessoa, mas sim a (quase) todos os envolvidos.

Então, que tal esperar ver Daniel Radcliffe interpretando Freddie Mercury (caso ele aceite o papel) antes de sair dizendo:

“NÃÃÃOOOOOO!”

 

Fonte: http://bit.ly/1b1ibO3